Copa do Mundo: um breve histórico de inovação e evolução (Última Parte) - EsporteNaRede

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Copa do Mundo: um breve histórico de inovação e evolução (Última Parte)

Depois de falar do período clássico do futebol entre as Copas do Mundo de 1930 a 1962 e do período romântico, entre 1966 e 1990, chegamos às últimas sete edições de mundiais.

Copa do Mundo utiliza, pela primeira vez, o Video Assistant Referee (VAR).
Colaboração de texto: Rodrigo Focaccio/Produtor de conteúdo, consultor de comunicação e empreendedor
Colaboração de foto: APF/FIFA

A tecnologia é realidade na preparação das equipes, na arbitragem, nas transmissões e no acompanhamento dos jogos pelos torcedores. Ainda assim, velhas práticas insistem em permanecer no futebol.

1994

A Copa do Mundo seria disputada nos EUA, país do futebol de bola oval, pela primeira vez. Promessa de que a maior potência econômica do mundo também se transformasse em uma força no futebol, o que de fato aconteceu. As americanas conquistaram três títulos Mundiais em sete edições. Já os homens seguem como promessas. Inaugurou-se o sistema de três substituições - sendo a última exclusiva para o goleiro. Mas a grande inovação dessa Copa foi a mudança para três pontos por vitória, o que, em tese, obrigava às equipes atacarem mais do que se defenderem. Mesmo assim, foi a primeira Copa decidida por pênaltis, entre Brasil e Itália, depois de 120 minutos de um jogo cauteloso sob um sol massacrante, típico para o horário definido pela TV. Não se pode negar que o técnico brasileiro inovou ao conquistar o título com a seleção brasileira jogando ao contrário de sua tradição, muito mais pragmática, com mais eficiência e menos espetáculo. Depois do haitiano Jean Joseph, na Alemanha 1974, e o escocês Willie Johnston, na Argentina 1978, o craque Maradona seria flagrado no exame antidoping. Não era a primeira vez que um jogador sofreria uma punição por substâncias proibidas, mas é inédita até hoje a cena em que a enfermeira vai até o campo para buscar o jogador antes do xixi. Bem ao estilo norte-americano, as macas foram substituídas por carrinhos de golfe para retirar atletas lesionados de campo. Os uniformes das seleções cada vez mais disputados por grandes marcas de material esportivo se tornaram coloridos e, em alguns casos, extravagantes, bem ao estilo anos 90. Os juízes também deixaram de ser monocromáticos em preto e passaram a usar uniformes de outras cores.  Pela última vez a Copa seria disputada por 24 seleções. Oito novas vagas seriam abertas a partir do Mundial seguinte. O jornalista Marcelo Barreto também aponta outra inovação no torneio. Depois de Bellini levantar a taça, Carlos Alberto beijar a taça, Dunga criou o gesto de xingar a taça.

1998

A França recebeu a primeira Copa do Mundo com 32 seleções em busca do seu primeiro título, o que de fato aconteceu. Enquanto isso, na Europa, alguns países entravam em acordo para o lançamento de uma moeda única: o Euro. Nas regras, a principal inovação seria o “Gol de Ouro”, que definia uma partida na prorrogação a favor de quem marcasse primeiro. Nas oitavas-de-final, foi o Golden Goal que determinou a classificação francesa em um jogo épico contra o Paraguai, que tinha uma defesa praticamente intransponível, liderada pelo zagueiro Gamarra, capaz de jogar todas as partidas da Copa sem cometer uma falta sequer.  Em uma final em que os franceses, no embalo da Marselhesa, foram muito melhores que os brasileiros, atordoados pelo time comandado por Zidane, um descendente de imigrantes argelinos que não cantava o hino do país, e também abalados por um ataque convulsivo sofrido por Ronaldo pouco antes da partida. Apelidado de Fenômeno, Ronaldo foi protagonista de mais uma inovação do mercado esportivo para o futebol. Inaugurou em um patamar sem precedentes, a mistura de craque do futebol com astro pop, que treinava, jogava, dava entrevistas e nas poucas folga participava de milhares de campanhas publicitárias. Aos 21 anos, é possível que a gigantesca pressão tenha sido insuportável para quem, até cinco anos, era um menino pobre da periferia do Rio de Janeiro.

2002

A primeira Copa do Mundo realizada na Ásia e dividida entre dois países: Japão e Coreia do Sul foi também a primeira do século XXI e ocorria menos de um ano após o maior atentado terrorista no Ocidentem quando aviões derrubaram as torres do World Trade Center. A ISL, principal agência esportiva dos anos 80 e 90, e parceira fiel da FIFA, havia pedido falência e, durante o processo, descobriu-se que a empresa tinha métodos eficientes, mas não inovadores e tampouco honestos: ela havia depositado R$ 190 milhões para dirigentes da FIFA. Iniciava-se ali a decadência de João Havelange, mas Joseph Blatter, então presidente da entidade, ainda permaneceria forte por mais tempo e praticando os mesmos métodos de seu antecessor. Dentro de campo, a seleção turca derrubaria apostadores e chegaria ao terceiro lugar do Mundial enquanto seu atacante, Hakan Sukur, faria em onze segundos o gol mais rápido da história das Copas. Foi também a primeira vez que um goleiro terminou eleito como melhor jogador do torneio em uma decisão divulgada antes da partida final. Embora uma falha de Oliver Kahn no primeiro gol brasileiro da final faria com que no campeonato seguinte a decisão para o melhor jogador da Copa ficasse para depois do fim do último jogo. O Brasil era o primeiro e único pentacampeão e Cafu o primeiro e único jogador a disputar três finais consecutivas.

2006

De volta à Europa, a Alemanha sediou a primeira Copa acompanhada massivamente pelas redes sociais e repercutida sob a perspectiva dos memes. Pois logo a final entre França e Itália proporcionaria, talvez, aquele que ainda é o maior gerador de memes da história das Copas: a cabeçada de Zidane no zagueiro italiano Materazzi, que mudou o rumo da decisão. Melhor jogador do torneio, Zidane foi expulso e a Itália ganhou seu quarto título nos pênaltis. No futebol italiano, os holofotes miravam os escândalos de compra de juízes e armações de jogos que envolvia, entre outros, Silvio Berlusconi, um inovador empresário das comunicações e do futebol que não se dizia político para, assim, alcançar o poder também como primeiro-ministro do país. Essa também foi a primeira Copa do Mundo em que o mesmo árbitro apitou a partida de abertura e a última: Horacio Elizondo, da Argentina. Cafu se tornou o jogador que mais partidas venceu em Copas do Mundo.

2010

A primeira Copa realizada na África seria palco do primeiro título mundial da Espanha. Uma das inovações dessa Copa não foi tão vista quanto ouvida: as vuvuzelas transformaram o som ambiente de todos os jogos. Como sede, a África do Sul inaugurou estádios modernos que seriam abandonados depois de trinta dias, logo ao fim da Copa. O time, comandado pelo técnico Carlos Alberto Parreira, inaugurava o feito de ser a primeira seleção anfitriã eliminada na primeira fase.  Sérvia e Eslováquia desembarcavam para disputar o primeiro Mundial como países independentes enquanto Coreia do Sul e Coreia do Norte disputavam pela primeira vez uma mesma Copa do Mundo. Dentro de campo, o atacante uruguaio Luis Suárez fez uma defesa milagrosa, espalmando a bola que daria o gol da vitória para Gana, nas quartas-de-final. Suárez foi expulso, mas graças ao seu reflexo, o Uruguai passou à semifinal. Em busca de inovar sempre, a Adidas lançou a bola Jabulani, que ficou conhecida por ter vida própria e exímia enganadora de goleiros. Desde 2006, o tênis já utilizava recursos eletrônicos para lances duvidosos, mas o futebol resistia mesmo com as lambanças da arbitragem cada vez mais expostas pelo arsenal de câmeras que transmitiam as partidas. 

2014

O-E-A! A Copa do Mundo chegava ao Brasil com a promessa de trazer inovações nos transportes e na infraestrutura do país que mesmo quatro anos depois do fim do Mundial ainda não estariam prontas. Estádios foram construídos em regiões modestas em termos de futebol , mas grandiosas nos acordos políticos. Dentro de campo, pela primeira vez se usava o chip na bola, que permitia dar segurança para o árbitro assinalar quando ela cruzou ou não a linha do gol. França e Honduras tiveram o privilégio de estrear essa tecnologia. Foi também o debut em Copas do spray utilizado pelos árbitros para demarcar a distância das barreiras. O vídeo ainda não entraria em capo, mesmo que no vôlei o recurso já era recorrente desde 2012. Durante a Copa, quem podia pagar ingressos não era o torcedor que estava acostumado a ir aos estádios, a torcida não conseguiu criar mais do que um grito de incentivo, mas inovou ao proferir palavrões durante uma abertura de Copa do Mundo, provando que educação não tem nada a ver com classe social. Em todos os aspectos, foi a Copa mais cara da história ou a que mais dinheiro movimentou, além da mais poluente. Só a seleção espanhola valia cerca de 916 milhões de dólares. embora o dinheiro não a impedisse de cair na primeira fase. Sem inovação, a seleção brasileira buscava a estratégia de ganhar pelo ufanismo de jogar em casa e depositar todas as fichas em um único jogador. Mas Neymar se machucou e assistiu imobilizado ao passeio dos alemães no Mineirão. Se o Brasil não conseguia criar nada novo dentro e fora de campo, saía da Copa com um vexame inédito na história das Copas. Dias depois, a comissão técnica da seleção brasileira finalmente conseguia inovar ao apresentar uma carta de Dona Lúcia, uma suposta torcedora, emocionada e agradecida pelo trabalho realizado naquele Mundial. No alto escalão do futebol brasileiro, José Maria Marín substituiu Ricardo Teixeira, acusado de crimes de corrupção, e aguardava sua vez para ser indiciado e preso. Enquanto isso, a Alemanha investia há anos na formação de jovens jogadores com objetivo de praticar um futebol mais próximo do que antes faziam as equipes sul americanas. A equipe se sagrou tetracampeã, seu primeiro título desde a unificação e a primeira conquista de um europeu jogando uma Copa na América. Para o Brasil, ficou o sucesso da vinheta criada para o Mundial.

2018

As redes sociais não são utilizadas apenas para acompanhar os jogos da Copa, mas também servem para decidir eleições. Enquanto responde pelas acusações de ter ajudado a manipular o pleito nos EUA, o governo russo se prepara para receber a vigésima primeira Copa do Mundo. Pela primeira vez haverá o Video Assistant Referee (VAR), recurso que permitirá os juízes terem auxílio do vídeo para lances duvidosos, como fazem os árbitros da NBA há algum tempo. Serão 33 câmeras da transmissão pela TV, mais duas específicas para analisar impedimentos. Os torcedores poderão acompanhar as decisões com auxílio dos telões nas arenas. A seleção brasileira procurou se modernizar depois da lavada alemã embora tenha um coronel como presidente tampão da sua confederação de futebol porque a corrupção segue sendo a tônica na administração do país. Dentro e fora de campo. Pela primeira vez haverá um enorme contingente de torcedores brasileiros que, entre decepções esportivas e políticas, afirmam não dar bola para a Copa do Mundo ou, pior, pretendem torcer contra o time brasileiro. Entre tantas modernidades e algumas velharias, torcedores que viajarão à Rússia são alertados para que gestos de afetos homossexuais sejam contidos porque assim determina a lei do país escolhido pela FIFA para sediar a Copa do Mundo. Os russos inventaram o helicóptero e o telefone móvel, mas como em muitos outros lugares ainda não criaram uma forma de respeitar diferenças. Sintomático para um esporte que, mesmo em seu quinto Mundial do século XXI, ainda não saiu do armário,

Mais do que uma referência bibliográfica, esse texto é uma homenagem ao melhor livro sobre futebol já escrito - Futebol ao Sol e à Sombra, de Eduardo Galeano.

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