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  Boa Noite, Sábado 04/09/2010
Meio Ambiente
30.07.2010 | 10:15:46
Menosprezando a História
Colaboração de texto e foto: Bernardo Mussi

De proporções inconcebíveis para um espaço tão pequeno e sensível como a Praia do Porto da Barra, o Espicha Verão e o Música no Porto precisam ser reavaliados urgentemente para as próximas edições, principalmente pela ótica dos poderes públicos. Não quero reclamar do lixo gerado pelas ruas, praia e oceano, isoladamente. Não quero mais falar do xixi, do cocô, do mau cheiro, da invasão de ambulantes, do barulho ensurdecedor, do transito caótico e da depredação de objetos públicos, apenas por uma percepção pessoal.

Não vou ecoar as vozes indignadas dos moradores e comerciantes locais que pagam IPTU de “área nobre” e são obrigados a engolir tamanha esculhambação em suas portas, apenas com a visão de quem mora no bairro. Quero falar dos problemas que estes eventos geram com a amplitude que merecem por estarem acontecendo em uma praia diferente das outras.

A praia do Porto da Barra é um museu a céu aberto, um sítio arquitetônico de beleza rara e um evento que transcende estas tentativas efêmeras de se levar cultura e diversão ao nosso povo a um custo elevado e impactos duvidosos. Os problemas gerados ali não são reclames que possam ter tratamento isolado como algo de interesse do bairro, apenas. São problemas que interferem na identidade da nossa gente, na história da nossa cidade e do nosso país.

Não tem cabimento ver diversos órgãos públicos permitindo, financiando e promovendo eventos que agridem um sítio histórico e cultural tão relevante como a praia do Porto da Barra. Só o fato de se montar palcos enormes em cima do Marco de Fundação da Cidade do Salvador, uma obra ofertada pela colônia portuguesa á Bahia e que retrata a chega de Tomé de Souza no local, já demonstra um absurdo injustificável.

Primeiro pela agressão oficial a um espaço que deveria ser blindado, melhorado e promovido nacional e internacionalmente como um Marco da própria história do nosso país. Depois, no mínimo, por representar um desdém àqueles que nos presentearam com peças tão valorosas. Tamanho contra-senso nos leva a tecer especulações temerosas na busca de argumentos que possam fundamentar o que parece sem fundamento.

Talvez a crença de que ações sem o devido planejamento possam se justificar sob o manto de apelos oportunos, mesmo esbarrando na lei, seja uma explicação. Um argumento sem o menor propósito que certamente resultará em grandes prejuízos para a sociedade em futuro próximo.

Um exemplo atual é a catástrofe causada pelas chuvas e as ocupações irregulares em áreas de risco no Rio de Janeiro. Tais locais foram asfaltados, ganharam iluminação pública e toda a infra-estrutura básica do próprio governo que acabou virando algoz da situação.

Em Salvador as barracas de praia foram crescendo em numero e tamanho, ganhando fama de favelas e enfeando nossa orla para se tornarem um enorme problema para a cidade. E governos também foram solidários por anos concedendo licenças e incentivando sua proliferação por interesses aparentemente eleitoreiros, mesmo atropelando a lei. Da mesma maneira é possível falar, por analogia, de grandes eventos em locais inadequados como o Carnaval o Espicha Verão e o Música no Porto. É previsível que se medidas não forem tomadas pelos poderes públicos para reformular tais iniciativas tornando-as menos agressivas ao local tão sensível como a orla da Barra, poderemos presenciar uma enorme catástrofe cultural, ambiental e de identidade, em breve.

É curioso, por exemplo, no caso do Espicha Verão, ver tantas placas publicitárias espalhadas pela praia promovendo os órgãos públicos e seus parceiros, e não ver uma placa sequer contando a história do Porto da Barra, dos seus fortes e da própria cidade do Salvador. É triste ver o Forte São Diogo e o Forte Santa Maria cercados por placas publicitárias e banheiros químicos em nome de eventos que pouco se preocupam com a geração de benefícios para o local.

Não há como deixar de dizer que nossa história tenha sido empurrada para dentro de vasos sanitários, sem a menor cerimônia, e que o turista que gosta de eventos assim não interessa em nada à nossa cidade. Por essas e outras é que a praia do Porto da Barra precisa de atenção especial. Sua degradação progressiva é plenamente tangível e preocupante.

É necessário que medidas sejam tomadas para que toda a praia do Porto da Barra seja protegida por conta de sua importancia no cenário histórico, ambiental e cultural. Daí porque um plano de revitalização ousado é necessário. Tornar a praia do Porto da Barra uma referência para o turismo de qualidade em Salvador será um investimento muito mais inteligente do que aquele destinado a eventos de resultados passageiros e duvidosos.

Quero deixar claro que não sou contra os eventos tratados aqui, pelo contrário, sou a favor de todos eles pela qualidade da estrutura e principalmente dos artistas que se apresentam, porém, em outra praia. Quero dizer também que acredito muito na boa fé dos órgãos públicos. Faço aqui apenas os inevitáveis comentários visando alertar os gestores sobre a temerária participação em eventos que devem ser meticulosamente analisados por seus impactos ambientais, culturais e turísticos antes de serem liberados. E mais ainda, antes de receberem recursos públicos.

Só fiquei um pouco triste com a mídia. As matérias foram brilhosas ao extremo e não houve espaço para mostrar um pouquinho das coisas que tratei por aqui. Parece até que estou vendo chifres em cabeça de mula. De qualquer sorte, supondo que só eu tenha percebido tantos absurdos, ou mesmo que esteja completamente equivocado, não há como negar que tais eventos menosprezaram nossa história.

Pior, sob a complacência dos órgãos públicos…

 
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