Copa do Mundo: um breve histórico de inovação e evolução (Parte II) - EsporteNaRede

domingo, 17 de junho de 2018

Copa do Mundo: um breve histórico de inovação e evolução (Parte II)

No primeiro texto, falei dos primórdios das Copas do Mundo. Agora, chegamos ao período mesozoico dos Mundiais.

Chegamos ao período mesozoico dos Mundiais entre 1966 e 1990.
Colaboração de texto: Rodrigo Focaccio/Produtor de conteúdo, consultor de comunicação e empreendedor
Colaboração de foto: Juan Guerra/Museu do futebol

Desataque para a Copa do Mundo de 1970 que, além de ter a exuberante seleção brasileira tricampeã, foi um ponto de virada no futebol enquanto esporte e entretenimento.

1966

Pela primeira vez, a porrada se tornou uma estratégia clara para se vencer uma partida. A seleção brasileira apanhou muito de Bulgária e Portugal e acabou se tornando o primeiro campeão eliminado na primeira fase do Mundial seguinte. Ainda assim, a desordem na preparação da equipe, o que não era exatamente uma inovação para o Brasil, teria mais culpa no vexame do que os pontapés gringos. Estreavam também as transmissões ao vivo dos jogos e as polêmicas de arbitragem ganharam ainda mais evidência. A Inglaterra ganhou seu primeiro e único título com um gol irregular na final contra a Alemanha, mas também inovara ao utilizar uma tática que privilegiava uma defesa consistente. Neste Mundial, uma confusão obrigaria à FIFA inovar para a Copa do Mundo seguinte. Durante a partida entre Argentina e Inglaterra, instalou-se uma confusão depois que o zagueiro celeste Perfumo foi expulso. O juiz alemão não entendia espanhol e os argentinos não conseguiam falar alemão. Foi então que a FIFA decidiu por utilizar, no Mundial posterior, os cartões amarelos e vermelhos para melhorar a comunicação dentro da cancha. Conta-se que a ideia surgiu do árbitro inglês Ken Aston um dia depois do jogo, ao parar em frente a um semáforo.

1970

Boas vindas às cores. A bola deixava de ser marrom para ser branca e com detalhes em preto. Pela primeira vez a Copa seria transmitida pela TV em cores. Uma inovação que certamente transformaria o consumo do esporte como produto. E como conspiração dos deuses foi justamente nesse Mundial que surgiu, para muita gente, a seleção mais plástica e artística de todos os tempos: o Brasil de Pelé, Gérson, Rivelino, Jairzinho, Tostão e cia. Também foi a primeira Copa que utilizou o sistema de cartões depois da confusão no campeonato anterior e inaugurou as substituições de jogadores durante as partidas, provavelmente uma resposta à pancadaria da última edição. Pela primeira vez, os torcedores colecionavam as figurinhas dos jogadores em álbuns ilustrados produzidos pela Panini. Com a disputa na altitude do México, a ciência ganhava papel mais relevante na preparação da seleção brasileira e a equipe fez treinos novos e específicos para jogar no México. A seleção também se consagraria como o primeiro país a conquistar a taça Jules Rimet por três vezes e, assim, ganhá-la em definitivo. O fato provocaria outra situação inédita, em 1983: o roubo da taça da Copa do Mundo. Fora dos campos, enquanto a Ditadura brasileira torturava e matava oponentes do regime militar e artistas precisavam acompanhar o Mundial fora do país por conta do exílio, o governo utilizava o futebol como propaganda do seu “milagre econômico”.

1974

Com a conquista definitiva da Jules Rimet, estreava a nova taça da Copa do Mundo. A seleção da Holanda, liderada por Cruyff, Neeskens e o treinador Rinus Mitchell trazia uma das maiores inovações táticas que o futebol havia presenciado. A Laranja Mecânica, como ficou conhecida, também eternizou expressões como “carrossel holandês” e “futebol total”, no qual os jogadores não guardavam posições fixas. A Holanda inovou também ao permitir que seus jogadores pudessem levar esposas e namoradas para o Mundial, se afastando da cultura um tanto militar do esporte. Provavelmente atordoado com o futebol dos holandeses, o zagueiro Luís Pereira se tornou o primeiro brasileiro a levar um cartão vermelho em Copas do Mundo, na partida semifinal vencida pelos laranjas por 2 a 0. Nenhuma novidade era o desdém do futebol contra os favoritos. A Alemanha levaria o título da Holanda, vinte anos depois de ganhar de outra favorita, a Hungria. Com a tomada de poder da FIFA por João Havelange, o futebol passaria a ser considerado, nas palavras do próprio dirigente, "um produto" e se iniciava, oficialmente, sua expansão para se tornar o esporte mais popular do planeta. Havelange também inaugurava uma longa dinastia no poder e só sairia da presidência da FIFA em 1998. 

1978

A essa altura uma ditadura militar tentar se promover às custas do futebol não era inovador. Mas o regime militar argentino seguiu a receita na Copa disputada em seus domínios e foi incapaz de esconder alguns problemas de organização. A seleção da Holanda não tinha mais a mesma surpresa de quatro anos antes e, mesmo assim, chegou à final. Acabou derrotada pelos donos da casa. A vitória dos argentinos também inaugurou um novo capítulo do futebol dedicado às teorias das conspirações, não tanto pelo jogo final, mas por sua classificação. Contra o Peru, uma das melhores seleções daquele Mundial, os donos da casa venceram por 6 a 0 em um jogo que teve o horário da partida alterado sem mais nem menos, um goleiro argentino naturalizado e muitas desconfianças que permanecem no ar até hoje. É possível que esse tenha sido também a primeira Copa em que um juiz encerrou a partida com a bola no ar. No jogo entre Brasil e Suécia, Zico marcaria um gol de cabeça depois da cobrança de escanteio. Mas o juiz anulou, alegando que já havia encerrado a partida. O Brasil foi eliminado do torneio invicto. Desde então, as teorias conspiratórias seguiram aparecendo em outras Copas, mas não com a mesma força. Pela primeira vez, o regulamento permitia que uma partida fosse desempatada na decisão por pênaltis, mas a primeira disputa só se daria na edição seguinte. A seleção da Tunísia se tornou a primeira seleção africana a vencer um jogo de Copa (3 a 1 no México).

1982

Na Espanha, aconteceu a primeira Copa do Mundo com 24 seleções (antes eram 16), o primeiro Mundial em que todos os continentes estavam representados. Foi nessa edição que aconteceu a primeira decisão por pênaltis para decidir uma vaga: Alemanha Ocidental eliminou a França com tiros da marca fatal com bolas que, pela primeira vez, teriam costuras seladas que as deixavam impermeáveis, mas que não explicam os 10 a 1 da Hungria sobre El Salvador, a maior goleada de todas as edições de Mundiais. Do lado dos dirigentes, o príncipe do Kuwait e presidente da federação local, Fahd Al-Ahmed Al-Jaber Al-Sababe, inovou ao criar um novo expediente para alterar o resultado de uma partida. Invadiu o campo para protestar contra um gol dos franceses na segunda rodada e convencer o bandeirinha a voltar atrás da marcação. Mesmo assim, não impediu a derrota do Kwait para os Azuis. Do lado da arbitragem, Arnaldo César Coelho se tornou o primeiro juiz não europeu a apitar uma final de Copa do Mundo. O lateral brasileiro Júnior também inovou. Elevou definitivamente o pagode como trilha sonora das seleções brasileiras ao se lançar também como cantor e colocar nas paradas uma música que se tornaria o hino daquela seleção, chamada de “Povo Feliz” só que bem mais conhecida como “Voa Canarinho, voa”.

1986

Antes mesmo de começar, a Copa já contava com um fato inusitado: a Colômbia, país-sede, abandonava sua condição de anfitriã por problemas políticos e a Copa do Mundo voltava ao México, onde a torcida local criaria a Ola nos estádios. Pela primeira vez as partidas seriam disputadas com uma bola totalmente sintética. Maradona inventava uma nova forma de fazer gols (ao menos em um jogo decisivo de Copa): com a mão de Deus. Mas também era capaz de inovar cada vez que pegava na bola com o pé esquerdo e era capaz de inventar espaços inexistentes como no gol que deu o título aos argentinos. No sol escaldante do México, jogo empatado em 2 a 2, e Dieguito vê uma brecha estreita para lançar a bola entre os marcadores e deixar o companheiro Burruchaga cara a cara com o goleiro Schumacher. Os pênaltis começavam a se tornar um martírio para craques: Sócrates, Zico e Platini desperdiçaram suas cobranças em uma mesma partida. As transmissões de TV também passariam a comandar a programação dos jogos. Sob o calor massacrante do meio-dia, os jogadores foram obrigados a disputar jogos para beneficiar a grade televisiva das emissoras, inclusive a partida final. Longe dos gramados, mas especificamente na estratosfera, a ciência descobriria o primeiro buraco na camada de Ozônio.

1990

Depois de inovar com um gol de mão, Maradona criava um jeito de jogar com uma perna só. Machucado, ele liderou a Argentina até a final e conseguiu enfiar uma bola para Caniggia eliminar o Brasil nas oitavas-de-final. Os alvicelestes seriam derrotados pela Alemanha. que se tornaria a segunda seleção tricampeã do mundo. O Mundial na Itália teve a pior média de gols (2,21) de todas as Copas e há quem a considere o auge do "futebol de resultados", no qual o importante era vencer e nao dar espetáculo. A consequência seria uma das principais inovações do futebol moderno: 1990 seria a última Copa em que a vitória valeria apenas dois pontos e seria muito mais difícil se classificar só com empates. O Mundial da Itália também veria pela última vez as seleções da Iugoslávia, Tchecoslováquia e União Soviética, desintegradas depois da queda do Muro de Berlim e o fim do comunismo na Europa. 

(No próximo texto, chegamos a Era Contemporânea do futebol, entre as Copas do Mundo de 1994 até 2018)

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