O volante é o novo armador? - EsporteNaRede

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

O volante é o novo armador?

As posições dos jogadores de futebol são como as peças de roupa: dadas a, de tempos em tempos, morrer e renascer; entrar e sair de moda.

Fonte: FIFA.com
Foto: © Getty Images

Os laterais já foram gente com a função única e exclusiva de defender, como já se tornaram quase atacantes. Os pontas já foram de necessidade absoluta a figuras obsoletas e a boas opções de novo. E, agora, procurando nos obituários, você logo é capaz de encontrar por lá: o meia armador clássico. Morreu. Aquele cara que fica no meio-campo, logo atrás dos atacantes, com a função de organizar o jogo, ditar o ritmo e distribuir passes? Dizem que já quase não existe mais.

E, então, cabe uma pergunta: se o meia armador não existe, como é que se arma – e ainda se arma o bastante para, por exemplo, o torneio encerrado mês passado no Brasil ter se tornado a Copa do Mundo da FIFA com mais gols na história? Se já não se fazem mais Gersons, Riquelmes e Zidanes, como a bola continua chegando aos atacantes?

“O que a gente vê cada vez mais são meio-campistas que podem até ter características diferentes um do outro – com mais arrancada em velocidade ou com mais toque –, mas com algo em comum: eles percorrem uma faixa maior do campo, desde a entrada de sua área, e organizam o jogo desde lá até o ataque: (Andrea) Pirlo, Xavi, (Paul) Pogba, os alemães... ”, analisou Zico em conversa com o FIFA.com durante a Copa. Quer dizer: o meia armador existe, sim. Ele só deu uns passinhos para trás. Em muito time bom, tornou-se aquilo que antes poderíamos obscenamente chamar de “volante” – como, por exemplo, no caso mais ilustrativo destes dias: o dos campeões do mundo.

Geração meio-campo

Aquilo que Zico se limita a definir como “os alemães” poderia valer para diferentes formações do time de Joachim Löw, mas é bem o caso do trio de meio-campistas a priori titulares, que jogaram a retumbante semifinal diante da Seleção Brasileira: Sami Khedira, Toni Kroos e Bastian Schweinsteiger. Gente que, pela habilidade, normalmente tenderia a ser escalada mais próxima do gol, mas que, ao contrário, incorporam essa ideia moderna de se criar com qualidade desde o início. “O mais importante é que jogadores como o Schweinsteiger sabem o momento certo de levar a equipe para pressionar e de voltar, entrar no meio dos dois zagueiros para defender e iniciar a jogada”, comentou Dunga ao FIFA.com ainda durante a Copa, antes de ser escolhido como técnico da Seleção Brasileira. “Isso é fundamental, assim como o fato de se ter uma boa leitura do jogo. Outro ponto para a Alemanha: ele e o Khedira têm o entrosamento perfeito, porque um deles sempre está na frente da área, protegendo a defesa. A maioria das equipes jogam em linha, então um bom passe às vezes tira quatro ou cinco jogadores de posição.”

A Alemanha de Löw não inventou isso, é certo. Aliás, a formação de novos conceitos no futebol não acontece assim, de um momento para o outro, com uma data de início gravada na aliança: é fruto de um processo. Mas é difícil não associar essas mudanças no funcionamento dos meio-campistas com o sucesso recente tanto da seleção espanhola quanto do Barcelona – um sucesso nascido, principalmente, da qualidade para se passar a bola desde a defesa e ilustrado especificamente por um sujeito: Xavi. “No momento em que eu o vi pela primeira vez, sabia que ele seria o cérebro do Barça por muitos anos”, disse certa vez Josep Guardiola, ele próprio um precursor desse volante-armador quando jogava e, depois, técnico de Xavi num vitoriosíssimo período do clube, entre 2008 e 2012.

Foi justo essa a época em que a Espanha, primeiro sob Luis Aragonés e depois sob Vicente del Bosque, se tornou bicampeã europeia e campeã do mundo em 2010, primando justamente pelo toque de bola que começava com seu armador mais recuado, Xavi. “Às vezes eu digo que todos deveríamos nos sentir um pouco meio-campistas, que é o sentimento de querer defender, construir e atacar”, disse certa vez Del Bosque, em entrevista à agência Dpa, ao comentar a vitória na UEFA Euro 2012, quando sua equipe marcou 4 a 0 na Itália sem contar com nenhum atacante de ofício. “Se tivéssemos dez meio-campistas, seríamos melhores ainda.”

A evolução de sempre

O sucesso estrondoso dessa Espanha que criava como poucas equipes no mundo e se focava em seu meio do campo – sem, no entanto, contar com nenhum armador clássico – fez com que a evolução da posição de meio-campista, para não dizer do futebol todo, tomasse um rumo  e uma velocidade notáveis. “Acho que houve mais mudanças nos últimos cinco ou seis anos do que nos 20 ou 30 anteriores”, analisa o ex-zagueiro e hoje comentarista Giuseppe Bergomi ao FIFA.com – ele, que defendeu a seleção italiana entre 1982 e 98 e testemunhou presencialmente boa parte dessa evolução a que se refere.

“Em pouco tempo, o futebol se tornou muito mais veloz e profundo. Quem tem técnica e consegue se adaptar a essa velocidade – seja ele um jogador veloz ou não – faz muito mais diferença”, explica Bergomi. “Por isso é que tem feito cada vez mais sentido ter jogadores técnicos numa posição mais recuada do campo, como foi o caso do Pirlo, por exemplo. Nós jogamos juntos na Internazionale quando ele era garoto, e eu via que ele tinha potencial. Mas ele só virou um craque mesmo quando foi posicionado 20 metros mais para trás: logo adiante da defesa. De lá, ele controla o ritmo do jogo, sem depender de a bola chegar até o campo de ataque.”

O meio-campista-padrão do futebol de hoje, então, é esse: joga na área que, a princípio, seria a do volante, mas tem qualidade para armar o jogo desde lá e se aproximar do ataque. Acontece que, como com a moda, há quem diga que as novas tendências não são mais do que reaproveitamento de conceitos antigos. “No meu tempo, nem tinha essa de volante: meio de campo era meio de campo. Só que você tinha liberdade para atacar e para defender.” Soa familiar? Moderno? Pois quem descreve ao FIFA.com é Zito, capitão do Santos de Pelé e campeão do mundo como titular nas Seleções Brasileiras de 1958 e 62.

Porque as coisas podem, sim, mudar e ter uma razão clara para isso, mas uma coisa é certa sobre o futebol: quando você tiver gente talentosa e que sabe passar a bola, pode colocar no meio do campo que funciona. Sempre.

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